29.9.09


o poema que tinhas a escrever

está pronto:


e.

terna noite fundamental

abresefechando fechaseabrindo


e.

o ver.

so novo

mentindo sua própria nov.

idade

cria-se de si

estranha estamparia


a.

temporal


4.9.09

[...]*

sente
como toco tua pele
suavemente
como toco teu sono
tuas mãos dormentes
toco prazerosamente
tua mente posta em mim

fecha os olhos:
que quando toco
delicadamente
teu pescoço amolece
querendo mais e mais
de meus lábios quentes

[com os quais sei que me mentes]

e é doce
e tem cheiro
e é frio
e calor

sente
meu amor
meus dedos
serem
teus cabelos
serpentes

lambendo macio
e calmamente
o veneno vivo
que és

demônio
insolente.

___________________________
* Poema à seis mãos de Andre Martins, Hanna e Harley Dolzane

28.8.09

...

(longa é a espera da palavra em sua caverna)


tua boca cheia de chuva

não dirá coisa alguma


não trará à tona

rastro ou qualquer

certeza de

vida...


[in]

verte o verso

no escuro


gota a gota


[sub]

ver te o


deus estilhaçou

o espelho de ver

se


comeste os cacos

mas tua língua


[de ser já tantas]


não

amanhe

-será




poema

algum



(HFD)

13.8.09

Verão


ser sol
salgando
.........tua boca quente

vento tecendo a cor de
.............................tua pele desfeita em mar
.....................................e tua morte......................................ali, rente
...........................................................(fera sobre a pedra)

........................à beira
........................de
........................um beijo
...............................................o ultimo antes do mergulho...

ser sol
teu signo cheio de verão
..............................e enfim a luz de teus olhos

.................................reinventando

.................................a língua
.................................do tempo

.................................a fala
.................................da ponta de meus dedos em tua solidão

.................................o calor.

(HFD)
imagem: Albert Ràfols-Casamada «Tensions», 2004 (acrylic paint on canvas)

28.4.09

lição de Gullar




I.

sem ênfase

a tarde--------------------coisa coisa

segue sendo ser-se-em-si

mas o poema - que dela se faz

remanesce

---------------flores---------------periquitos-----------------nuvens laranjas


nada de gosto de frutas:

------------------------se ficam sobre a mesa

------------------------se ninguém as deseja

------------------------seguem sem ter sido-------------------enquanto escurece(m)

------------------------festa na boca do menino


já o poema podre

-------------------------------de semana inteira

poderá mentir

-------------------------------suco carnudo


o poema não diz o poente.



II.

do fundo de sua morte

a tarde deixa de ser.

o poema atrasou-se----------e sempre foi silêncio


agora a noite das coisas

ele também poderá desdizer


a palavra é uma contradição

que será lida (quando?)------------------cheia de som

---------------e as coisas serão outras.

31.3.09

(roçar)


réstia:

a pele da luz

tem mais cor


.


nem sei de lençóis

e as fronteiras de nós


amalgamando-nos

com urgência cortante

e cheios de luz

apaguei

por completo


tuas marcas

em minhas costas


.


lua

vermelha

é febre

no coração de Morena


menina molhada

amanhece

nua


.


língua:

gosto mudo


.


por muito pouco

a ponta dos dedos

imobilizados de cio

não tocam o céu aberto


da boca


.


o copo vazio

é o corpo sem calor


.


resvalar:

vontade em pretérito

imperfeita


.


olho-estilete

destrinchando

molécula molécula:

eu

rindo de soslaio

digo palavra

alguma.

.

7.3.09

à Max Martins






etéreo

eterno

rio éter

pocket-poema

hibernal

po eter

a dor mecido

gota a dor

nada . tudo

a mor tecido

a marahu

(rio que te vestiu)

o baque

medra o casco e

segue miúda

------------a-----canoa carcomida

do arrozal--ao----(uni ver) sal

do pó-------ao

pó-homem

po-women

power

Pound

poeira

o caboclo aporta no estrangeiro

vai-se além do

NÃO

ES

TAR

A

QUI

:

lugarejo de encantaria

o mito é o não mais tocá-lo com as mãos

palavra apunh

alada


15.2.09


Hoje.

Mas manhã, viajaremos e seremos felizes.

É certo.

Ou quase.

Tudo isto certamente é quase

(um teste)

e embora eu deteste admitir

isto é um saco

minha boca

fundo de mim

amarrado

hoje a tarde

senti o tédio inteiro

como prédio que ruísse pavoroso

em silêncio

vôo-livre

que amanhã

viaja

-riamos rasantes

noite afora

Remanescemos.

É um teste

este sorrir pra dentro

aguando nuvens

de chover o dia todo

e ficarmos em casa

magoados com o verão:


o caso é todo este.


Mas amanhã

a barca de nossos exus seguirá

viaja-

remos velozes

e isto é um (?)


(eu) rio de nós.

27.11.08

poesia de memória ou "poemas reminiscentes"


Flamengo, 4:51.
o lugar é desaperceber o lugar
e toda a geografia de aterro e urca
e baías babilônicas como vulvas avulsas sobre as pedras pedras
e as esquinas que seguem rumo à Copa.

não há nada a dizer da rigidez e dos pêlos-árvores a cobrirem as virilhas
do poema-atlântico:
Botafogo!

*

Acaso importa o onde do poeta,
se explodem, sem memória, despertadores nucleares
no quarto ao lado?
Importa os pés do poeta-ficção, sua cama desfeita, viola calada, o deserto na palma da mão?

*

O passo é sempre gerúndio
ando indo (o último verso também se vai)
num sem-se-acabar sem fim

*

Há um sem-número de anos-luz
uma mulher dorme tranqüila como um sol
uma mulher dorme lenta e lânguida como que se pondo
e nesse sono de veludo leve e tranqüilo
há um poeta que estraga tudo...

*

É possível que nada,
sequer a releitura, via dos vapores que sonhas,
repita o branco do Rio branco que se há de esquecer.

Rios passam.
Suas cores é que, por vezes, restam, poéticas, na fotografia de lembrares...
e nelas, a casa flutuante dentro da qual o poeta se escancha numa rede.
(HFD)

29.5.08

(roçar)

respira

perto

tua vida
teu gás
dançando
sobre o nu-deserto

o poema
performance
a la Pound
e nada mais

bafo
lascivo
sobre a
carne-palavra
guerra que é a paz.

25.4.08

(roçar)

acordei
e ainda doíam
os ossos

não estares
era profundo assim

.

dizes
uma flecha

jamais alcançarás
alvura alguma

a letra tem cor de pomba
mas é mosca

.

roçar...
incendiar a noite

venha a palavra-vinho

deixar ranço na língua
como fruta seca

.

a noite da cidade é carne
que se consome:
combustível de automóveis lá fora

lá fora sou eu embriagado

.

a laje
onde fincastes os pés
vai caindo assim:
de má vontade
como quando a chuva é fina
na pele áspera da tarde

verdade
é palavra sem cimento

.

nem te falo mais da estrada.
mandar noticias
é não se tocar

.

boca
boca

entre: um deus
que não sabe beijar

.

encosta aqui:
bem onde me faltas

.

seio de nuvem
barba vagueia vasta
por ventre vasto vasto

vai ao sul
sem susto
língua de fogo

.

a duras penas
brancas de nuvem

o dia resvala
em estado de garça!

(o Tempo voa)

.

22.4.08

espera eu*

comestes borboletas
meu bem?

ai, já não era sem tempo...

agora é
como quando se tinha medo do escuro
e alguém já vai ligar a luz;

lembra quando ouvíamos voz-de-vento?

toc, toc, toc,
tem alguém ai?
ai dentro?!

* para Josie que sabe escutar a voz que ainda é só um ventinho!

16.4.08

dos poemas de outrora...





ar-
re-
galados
pulmões:


ato contínuo:


dá-se o mais
íntimo carbono;
pesa a porra
espúria de ar
nos peitos.


E nem que
se
des
queira


a poeira
pasto
imposta,


pro-
cessada
a paz
que cada
célula tira,

toda
res
pira
(!)

_________________________________________________________________

Borboleta






Há muito que penso em escrever
sobre a borboleta que, sabe-se lá porque,
um dia sentou junto a mim à beira mar.

De onde vinha?
Que dores trazia naquele vôo etílico?
Sentou-se por um instante...
Sentou-se e, sem querer sentar,
deitou um tanto de sol em mim,
como manhã que deposita serena
o caloroso lilás por toda a ilha.

E hoje, no dia em que quase esqueci
todo aquele rosa-vermelho que me
ofertava em sorrisos cínicos...
Hoje, no momento exato de vestir
uma camisa qualquer amarela;
Hoje, como espada de anjo que rasgasse o peito,
uma imagem distante daqueles
olhos cheios de lua
ali, a iluminar a praia toda,
cúmplice dos amantes insanos,
ali, sobre-humano canal de um sofrer tão dolorido...

Ah, não fosse pétreo o coração, certamente,
teria chorado... e tanto... e muito
que agora mesmo ainda seria 1° de janeiro,
nos ouvidos o som do mar...
teu cantar... salgado... aflito,
sombras de coqueiro dançando,
abraçando-te como um desconhecido
à tua brancura indecente e suave...

Ah, a paz de teu seio!
O desatino de tua boca devassa!
A solidão de tua voz!

Há certas horas que bem poderiam estancar...
Cessar o ritmo fluido.

E falavam aquelas mãos,
as mãos com que dançavas
teu repertório de loucura;
e falavam os bêbados de todas as esquinas
desejosos dum gingado teu.

E meu corpo...
os pêlos de ponta à ponta
arrepiavam-me pas du deux.

E meu corpo...
ah, meu corpo gritando tuas unhas!
Sim
a coreografia que me tatuaste falava tanto,
tuas legiões de escândalos falavam, falavam e falavam
a torto e a direito
e, agora mesmo, em algum lugar tuas roupas perdidas nas pedras
falam tanto ainda...

Caríssimo inseto.
Pequena canalha.
Tu, que me despiste doente de mim,
diante dum lume amargo
tão direta e sinuosa,
tu que te perdes
madrugada a fora,
em que leito, bandida, em que leito tu pecas?
Quem te ensinou a escapar assim pra longe, menina alada?
Em que ombro tens derramado teu suspiro de nuvem, tua volúpia,
o gemido sufocado?

Eu que nunca te soube uma vírgula,
ponho-me a sonhar-te palavra inteira
cheia de prosa
letra por letra
borboleta de rosa língua,
demônio cheio de graça!

Não!
Oh, não!
Não me escape da memória
doce-linda-amiga
irmã de desespero,
que te quiero!
Si, te quiero!






(HFD)

3.4.08

...

















O mundo não me cabe nos olhos, meu amor
e a mim não cabe reclamar

o que se vê é recorte e é melhor assim...

colo teu sorriso nas montanhas daqui
e, no teu pescoço, o cheiro do mar...
é tudo um mosaico de todo lugar

o verde, minha flor, cobriu muitos sonhos meus por aqui
além de minhas portas e janela...
e nem percebi que era essa a cor do teu vestido...


(HFD)

2.4.08

dos poemas de ontem a noite...



Faca:
vi muitas
e a carne sempre gela.

pior que a ânsia do quase-corte
é o saber-se, no fim, completamente
cega.






...

Olha o pássaro, meu bem,
deixa, que vou atrás seguir as pegadas no ar...

Oh, não, meu anjo,
mais que esquecer teu desamor
quero é lembrar que ainda tenho asas...




...




O tijolo do tempo não é a palavra.
dizer não (re)constrói e sequer existe:
quando muito, é papel.

e mesmo se tempo fosse casa, haveria sempre a chuva.

Fosse o tempo duro, pedra continuaria sendo a palavra e que tropeçamos.

Sangrasse, o tempo não seria carne

Morresse, tampouco seria vida




...








A poesia partiu;
pôs a fantasia e partiu
e fiquei lendo nuvens de chuva....

ela foi fogosa e cheia de tudo atrás do bloco
subiu o morro louca feito arco-íris a dar-se à Baco
(levou-me as cores todas, a vadia!)

Fiquei cinza bebendo angustia e solidão
já era quarta-feira:
ela, linda colombina,
eu, anti-folião.




...
O avião – mais um – se foi...
Naquele dia eram todos iguais:




o mesmo avião se repetia várias vezes
e sempre sumia
no céu do Flamengo.




Havia algo de feroz;
algo de feroz dormia em mim





eu era uma catástrofe tranqüila
e o sol, sem calor, molhava as costas






de repente: nuvens, oh, nuvens
tantas eram no céu do Flamengo!






O passarinho voou bem perto
corriam, corriam, corriam
e ofegavam ao longo da orla
e tudo era líquido sem saber.




O avião mergulhou no céu e virou chuva:
Sol também sabe chorar.







(HFD)

6.2.08

tempo vago

o papel enrugou...
há muito não escrevemos um poema...
o papel encheu-se de tempo e saber
vazio, encheu-se de nós
e quer morrer.


HFD

5.2.08

(...)


Um punhado de mim põe-se diante do, hoje sujo, mar do arpoador sentindo o gosto bom de quase ser Ipanema ou, logo após, Leblon ou, muito mais remoto, Guamá.


O sol é manso de se ver: diverso de verão; e brinca de pingar o céu aqui e ali (mas nunca em toda parte com o mesmo vigor), como o menino que, cobrindo os olhos com as mãos, sonha ter, simplesmente, sumido do mundo de modo que nenhuma criatura viva ou morta consiga-lhe encontrar, mas que, porém, só pra assegurar-se disso, vez ou outra dá uma olhadela por entre os dedos.


A mulher ao meu lado, de inexistir, distrai-se no profundo que há no ato de passar o batom cor-da-tarde. Leve, levanta-se. Sai. E sai porque, em verdade, nunca estivera ali. Passos trôpegos areia à fora.


O punhado de mim posto em meditação, sonhava outros eus (por onde andam?) e, sem que isso deixasse de ser fato, parte da parte que ele é comoveu-se profundamente com a ida daquela mulher que lhe levou de vez o sol, anoitecendo qualquer possibilidade de, enfim, ser-me.


HFD

17.1.08

...


Para mim e Olga Savary


Escrevo. Escrevo porque não tenho saída.
Escrevo porque não sei de mais nada.
Talvez pelo vinho aqui na mesa
por seu vermelho de ver melhor. Escrevo.
Escrevo por que um dia me disseste que podia e eu senti sinceridade no teu dizer.

Escrevo pra ti agora escrevo.
Escrevo. Escrevo e, não! Não te apiedes de mim! Escrevo.
Mira somente a poesia, peço-te. Que é só o que escrevo.

Escrevo por que tenho o teu endereço.
Por que tenho punho e um bando de coisa que não sei dizer. Escrevo.
E nem sei escrever, mas escrevo. Sem norte.

Escrevo que nem me sabe a morte.
Que nem me sabe a rima pobre.
Escrevo. Escrevo e é tão torto.
E é tão turvo e terno e tanto
Que escrevo. Que tento pelo menos sobre

Escrevo pra sei lá quem.
Escrevo e rasgo (me) papel
Escrevo e nem sei de onde
Escrevo. Agora por ti.

Por demônios como tu, escrevo.
Por loucura talvez escrevo. Pela flor.
De mentira.
Pelos meus escrevo.
Por tantos que nem chegarei a sonhar
Escrevo. Pela tarde. Afora.
É tarde, é noite.

Para todos e para que ninguém ouça!
Escrevo quando escrevo-esqueço
Quando nem sempre escrevo aqueço
vez em quando. Sem idade. Nasci!

Minúsculo escrevo mais
e maior. Mesmo quando não escrevo escravo
e ninguém vai lembrar desse rosto de vinte e três anos
no espelho do banheiro sua solidão na noite carioca
ninguém. Recentemente ninguém.

Escrevo sem rumo
Sem rumores escrevo
Retalhos da terra onde pisei
onde passo. Curto
Tenho passo curto
Tenho passo pouco
Passei poucas passei boas
Tenho muito mais que andar ainda
eu sei
de nada
um pouco.
Já vou indo. Volto. Voltei.

No mais escrevo
preciso mentiroso eterno
no mais ou mesmo. escrevo
Menos pra ti
que pra mim.

Sob o céu atual
o céu que comungamos
há os prédios e tantas outras vertigens...

o rosto de teu filho perdido
em qual rosto, em qual rosto se perdeu entre tantos
o futuro?
O olhar sem calor
a pele macia da moça
o mito. Os olhos do mito
Cego escrevo. Sem sossego.
De óculos escuros.

Repito tudo quanto ouço
Sem alarde: um grito
Sem conteúdo agudo aguado
é assim que escrevo
que tenho fé
gancho pendurado em lugar algum
escrevo sem apego
sem prego ou parede
sem chance
sem chave charme sem

qualquer pre
-tensão

qualquer pressentimento
pressão
sentir
sinto muito
sim, minto muito, e como(!)
tudo o que vier pela frente... como
sem ti

uma sonata bastante doce perde a cor
como uma pedra escrevo inerte inorgânico

já esqueci.
De todos aqueles sonhos bonitos
restou só isso...

HFD

14.10.07

leve

quem vai...
querer: verbo
fundamental

da vontade à ação: trans-tempo
ou não-finito-mortal (?)

dar vazão aos sins
cá dentro calados
sem razão abissal.

(vãos vento vendaval)

quem vai... ter a tua carne carnaval
quem vai...
dedos de mãos airadas
de areia escorrer pelos

os teu: lisos lindos cheios de treva

quem vai... vou em teus tornozelos.
me leva, vai, me leva
assim: leve...


À Carol.

caracóis em festa:

de sorrir-se rosa
linda e branca.

Carol sempre cora
nessas horas-coração

ah, a Carol e seus corais!

(HFD)

26.9.07

...

Saio com cheiro de praia
pra noite cheia de si:

ante a lua em prata
meu corpo de bronze é a prova
de que o sol também mora em mim.







-------------------------------------------------------------------------------------------------------------


Escorre pelas minhas mãos
nunca mais
nunca mais tornar

zarpei
de meu cais
sei que não sei mais
virar

o leme?
a ampulheta?

-------------------------------------------------------------------------------------------------------------



do amor.

retina
sem menina
no fundo

não
vês:
ela está fora


(de si)


-------------------------------------------------------------------------------------------------------------


Pensem o poema
esclerosado

rema rumo à morte
heróico

sem saber


que
tudo
é já
não
ser


-------------------------------------------------------------------------------------------------------------



menina pura
menina pura
menina, pura que pariu!





-------------------------------------------------------------------------------------------------------



tudo é vidro,
é areia metida a besta

trans



-parentes distantes



primárias cores


todos cortam!


-------------------------------------------------------------------------------------------------------
azia
ásia
que te vejo ainda por aqui

assim, assim, vadia, vazia asa

de ponta a cabeça no meu globo ocular
virando-me do avesso
o estômago

tua carne crua de salmão,
espezinhando, cadela,
minha maldita pequenez


-------------------------------------------------------------------------------------------------------

(HFD)

5.9.07


Antes de entrar
em transe
transo
antes da noite
de amante
diamantes

que quero a riqueza dos famintos
e a paz dos distantes

melhor ainda:
antes de amores
amoras

que minha língua há muito secou
e meus quilômetros por hora
não contam mais

__________________________________________________

Soprei verões sobre teu sono
e dormias. Agora, nunca mais:

sou mais que outono
primavera ainda que tardia!

__________________________________________________


Mas nem tudo é assim tão bom ou mal quanto parece
nem a dor de que teu corpo padece
e que o mar não ouve
nem a outra dor…

sente a brisa calar o calor.

A dor se adia.

adormece
ante a geometria
do vôo incolor

ninguém vê
ventania.

__________________________________________________


Barra.

dos papeis que voam
confusos---------em---------rodopios
pela sacada
o melhor é o seu

sustenta-se absurdo no ar
atira-se pro infinito do mar

é azul.

__________________________________________________



Rio Branco.

chove uma chuva
de acordes banais
todo santo dia.

---------Pássaros---------
sábados, domingos e feriados


(HFD)

1.9.07

água gelada
a página em claro apaga algo: o escuro
o escuro é gelado e a página ERA clara

o negro em mim ferve
minha fria verve se apagou

batata frita fria
ta (p)assando
a hora

Com minha asa, ando
vôo paralelo no meio do fervor
por favor, por favor no meio da pista
sem meio termo

onde está o meio (as vezes + as vezes –)
(em meio)
a teu meio me(u) extremo
----------------------estremeço (-me)
ateu, me estranho no meio do meu e do teu
-----------------------------------------------------exterior

doce, antes fosse só uma bala que
--------------------------------------eu chupasse
e se tudo isso fizesse sentido (?)
se furasse o ouvido pro calor do mundo
---------------------------- calar

sem cor. sem som. sem graça
a cachaça que se há de tragar
assim, branca da cor do tempo

Sabe-se do tempo: ele é curto
Sabe-se das tulipas: cheias / vazias


são flores (sem você) tristes
na espera do orvalho da madrugada
úmidas. A falsa ilusão de tua presença...

mas haverá o dia das margaridas
-------------------- desamarguradas
e o sol mentido de pétala
terá cheiro de verão.

(HFD & Mayra)

23.8.07


INTERLÚDIO

A hora incerta que antecede a Aurora, não a vejo.

Mas talvez haja uma palavra para explicá-la; uma palavra bonita e cheia de serpentes, uma palavra que me arrombe a janela e derrube o prédio em frente.

Ou não. Talvez não haja Aurora, sequer Tempo, de modo que a tal hora incerta, seja, por assim dizer, o prólogo de um grande truque; “O” grande truque...

O grande despropósito raiando ante os homens doentes da cegueira de só ver o que se quer.
E por isso mesmo, talvez se queira, exatamente, fechar os olhos.

A temperatura que se eleva sutilmente fazendo o suor brotar do rosto em contato com a fronha não é amanhecer;

Ouvi um galo cantar. Mas não sei onde: (logo) não é dia aqui;
em Pequim? Em Marudá? Há dois quarteirões? Na próxima esquina?

O cheiro do café e pão quente não faz a vida despertar.

Talvez o mundo não levante mais.Mas... e quanto a mim?



(HFD)

27.6.07

Rock 'n' Roll

O rock n’roll não morreu
sob tuas unhas em NY em Paris
em pleno ar ainda rola o rock n’roll

se esgarçarem teu peito
se te apontarem a estrada
haverá o mito a neura
se te apontarem a ruga

se te pisarem o calo
e gritares
o outro lado o outro lodo outro ruído gêmeo
será um riff rouco

e se te faltar o ar
e se te faltar o sangue
e se caíres em tentação
e caído, só e seco e todo sal
se furarem teus ouvidos
lembra que há conforto no ácido
lembra que há flores
e lembra acima de tudo:
as pedras vão rolar!

(HFD)

17.6.07

devaneios em Ipanema


E se de repente engolissem a cidade
(quem sabe o mar?
quem sabe a dor sufocada dos corações?)
os dias do porvir certamente
viriam mais limpos
como teu gosto em minha língua...
e seria possível até ouvir os pássaros.
............................................................................................

Meu tempo é outro:
aqui o sol já se pôs
atrás do prédio.
.............................................................................................

Parece que era de um vaso na mesa
e de uma galinha no quintal
que falava Ferreira
enquanto não te via passar.
..............................................................................................

Sob junho
e o fino verniz do dia ensolarado
inverna
não nas areias de domingo
nem nos pombos que caminham pela Vieira Souto
mas no veio do humano coração.
..............................................................................................

A esta hora no centro da cidade uma rua
experimenta o silêncio
mais que sepulcral de seu descanso
e os pombos
insistem em bicar o que restou da semana
na calçada.
.............................................................................................

A chaga da tarde inflama o céu,
mas, um dia, será noite
e a cidade dormirá sem dor

enquanto isso: curativo de nuvens
.............................................................................................

mar de ressaca
o surfista sabe:

a noite foi boa!

16.6.07

desperta-dor

São cinco e tantas da manhã
Quisera isso fosse uma velha canção que o relógio mentisse estridente...

São cinco, quase seis
logo estarei obrigado a agir novamente no mundo

O poema, pra ele resta pouco.
Justo ele que me foi até esta hora desmedido...

Breve, fora do sono nada restará
agora que a madrugada findou.

Lá fora um lençol bambeia
letárgico na janela vizinha

Segundo após segundo
o corpo todo embrulha-se de uma dor sem tamanho

O dia é claro e já me pesa a vista
Mais uma vez: eu, a dor
eu a dor eu a dor eu ador
-meço.

13.6.07

"No cerne do cio do silêncio..."

No cerne do cio do silêncio
solto, só
no seco do vinho
e na secura da boca
da noite sem charme
penso em ti, menina (--), entre outros tantos absurdos
e na fagulha em flor inconvenientemente linda e morena
que fizeste abrir
em meu desespero já tão ausente de explosões...

(tão cinza e tranqüilo era meu desespero
nem lembrava mais de incêndios cheios de cor)

Na calma da madrugada sem asas ou sabor
veio-me afoito teu querer
veio-me cru e urgente
todo certeza todo agora
como quem não tem escolha
ou como quem sonha-se tarde demais amanhã.

Amanheceu: acordaste, ou foi eu
que fiquei em claro?
Amanheceu: perdemos a hora:
tarde demais

"e eu dizia:
ainda é cedo, cedo, cedo, cedo..."*

*Ainda é cedo. Renato Russo

6.6.07

"é desse vento frio que me protejo..."

à Sara

É desse vento frio que me protejo
com luvas e camisa e lã

É por esse vento que insisto em manter as portas fechadas
e é dele minha vontade de fazer aqui dentro um poema quente

É o vento que me amarra junto a cama, no oitavo andar da Av. Praia do Flamengo
é com ele que me arrepio quando sonho o verão

Este vento, meu mais amado inimigo,
este vento, que já esqueci de onde veio, nem sabe o meu nome

e é dele que me preservo e do mau-cheiro das roupas úmidas
e do escuro do quarto quando é noite e apago a luz

Há muito tempo é isso. Lá fora já nem desconfio seu rosto;
aqui, existo fora da vida e quase isento de seu gélido mal-estar

Também não há, aqui, morte ou calor:
há luvas, camisa, lã e a mobília incinerada

O cinza daqui é mais sólido que o de fora, é verdade
porém, menos frio e mais calmo

Eu sei que um dia as roupas secarão totalmente no varal
e tudo há de evaporar

Será dia de sol e nascerão sorrisos trincados
e não haverá mais paredes, mas ilusões cheias de mormaço

e, então, abrirei a janela para que o vento assassino, seu punhal
ou talvez algum outro desastre novamente me alcance

Eu sei, e não adiarei o futuro.

"oh, vida futura
nós te criaremos..."*

*O mundo. Carlos Drummond de Andrade

4.6.07

Três poeminhas...

para o amigo André Martins
I

Ele não faz poesias.
Poesia é perder tempo
Poesia é não ter o que fazer.
.
E ele pensa:
Há tanto ainda o que fazer
E há ainda wisk
E há tantas fotografias na estante
de tudo mais, inclusive eu, estar;

E há ainda o velho acorde,
Distante e repisado acorde...
Com que bajulavam
minha meninice
E meus mais caros sonhos de amor...

“Acorda, amor!”

Poesia: não tenho onde por.

II

Ele não faz
idéia

Ele não faz
A mínima questão

Traga a tragédia humana
Embriaga a noite arrogante
Lança olhares espúrios
sem sentido e cheios de contramão.

“Traga-me o mundo
que não sei mais
como
-ver”
!

Colhe flores rotas
Lambe o chão

Ele faz de tudo um pouco:
Poesia,
Não

III

Longe
sem cor,
sem chão ou paz
nem desconfia
que tudo tanto faz

longe
a canção
bem mais
que fatal
repousa num
onde-aqui-tudo-jazz

onde
aqui
não se faz
mais

poesias.

26.5.07

(sem título)*

À Adriana

Doroti gulosa era
única em seu vestido verde azulado
de um azul tão folha
e um broche no cabelo.

Doroti era única
com barra branca no dito vestido e sapatos de boneca
sobre o mundo bege e cinza do salão

Doroti portava
em uma das mãos
um chocolate

e dava gosto de ver seus olhos enormes salivando
como brigadeiros infantis

* poema publicado na Revista Blocos Online (http://www.blocosonline.com.br/literatura/autor_poesia.php?id_autor=3318&flag=nacional)

27.4.07

Impressões de um poema.

Ao poeta e amigo Benny Franklin.

A madrugada
engole tua fala
em seco

o cão
rosna ao caos

poema vário
entre a orquídea
e o grito
fustiga
o outono

acaso sonhas
que, n'outro extremo do trópico,
desarquitetas uma estação
inteira?

Há Tempo incrustado
na ruga da palavra

e um coração em rebuliço
acredita mentir a morte
uma nesga,
miúda nesga,
de memória

da fluorescência da tarde
sobre as montanhas
há a tarde. E a tarde da tarde,
quem irá supor?

Ereto o prazer da fala
voraz o cheiro do esgoto
e como cereja sobre o bolo,
pinga-se demente no céu
uma primeira estrela
sem saber dos animais
que se lambem sob as sombras das árvores
em estranha gramática

mas teu vulto permanece alerta
teu agudo vulto assombra o mito

e arranha céus – não estes
cheios de estéril chumbo,
tua língua de fogo,


o vigoroso bolero, felino
teu verso bolina raivoso
as flores do sonho que se adia
e faz mover a engrenagem
de incêndios de que se vale o poeta
para consumir a vida.

29.3.07

O poema inicia:
não há palavras pra descrever este acontecimento.

O poema inicia,
passeia imundo
limpo de verbo
que lhe minta o cio do silêncio
e silencia...

mergulha em metafísica,
evita o papel,
dilui em vapor onírico,
ausenta-se de si...

O poema
não espera tinta:
dá a partida
e deixa um louco revirando
o quarto
a sala
a casa
um planeta inteiro:
essa
esfero
gráfica
perdida.

É leve o poema,
69 quilos de nostalgia.

éter
na
mente
idílico
o poema vicia

O poema inicia:
não cabe no corpo.
Vaza pelos poros.
Evapora
O poema
O poema que já nem quero
transborda em devaneio
o universo desta hora.

Mero pó-poema
calcinado,
poema sem valia.
Não se fixa nas paredes
o poema:
asfixia.

Quer o suicídio
O poema...
(Subsídio para nem chegar a ser)

Olha a janela aberta,
Toma um pouco de ar,
Fecha os olhos...

Lá se vai o poema!